Caderno Brasileiro de Ensino da Física publica editoriais sobre a participação de mulheres na física

22/12/2017 11:43

Em dezembro, o “Caderno Brasileiro de Ensino de Física” (CBEF) publicou a sua terceira edição de 2017 – o volume 34, número 3. O fascículo é composto de cinco diferentes seções, que totalizam 14 artigos, e um editorial complementar ao do Caderno anterior.

Na edição antecedente – o volume 34, número 2 –, foi publicado o editorial “Mulheres na Física: a realidade em dados”, escrito pela professora Débora Menezes, do Departamento de Física da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). O texto evidencia, por meio da precisão dos números, o desequilíbrio que existe entre homens e mulheres na Física.

Um estudo dos dados das Olimpíadas Brasileiras de Física (OBF), por exemplo, mostra como a discrepância entre a atuação de homens e mulheres na Física tende a crescer conforme o aumento da idade. Anualmente, alunos do oitavo ano do Ensino Fundamental (EF) ao terceiro ano do Ensino Médio (EM) podem participar. Notou-se que as premiações dadas às meninas são, em média, um percentual de 30% no oitavo ano do EF. No entanto, esse percentual diminui para, em média, 10% quando se trata das meninas do terceiro ano do EM. Além disso, o número absoluto de meninas que participam também diminuiu – o que é chamado de efeito tesoura.

Dos filiados à Sociedade Brasileira de Física (SBF), apenas 27% são mulheres. Número bastante parecido com a Sociedade Astronômica Brasileira (SAB), onde as mulheres ocupam apenas 29% dos lugares.

Dados e estatísticas têm sido levantados e o debate sobre a diversidade na ciência tem sido fomentado desde 2003, ano em que a primeira Comissão de Gênero, que hoje atua como Grupo de Trabalho sobre Questões de Gênero, foi criada pela SBF. Essa discussão é importante para que a posição das mulheres no meio científico e acadêmico seja vista e fortalecida.

Já nesta última edição, o editorial “Mulheres na Física: um pouco de história” ficou por conta da professora Marinês Domingues Cordeiro, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Este fala sobre como o acesso feminino, apesar de algumas exceções, à educação formal é recente. O texto exemplifica situações históricas em que mulheres que conseguiram esta educação formal foram negligenciadas.

Há pouco mais de cem anos, a polonesa Marie Curie precisou mudar-se para Paris para que pudesse completar os cursos de Física e Matemática. Entretanto, mesmo na França da Belle Époque, um período conhecido como progressista, a abertura do ensino universitário às mulheres era bastante reprovado pela população.

Curie doutorou-se com uma pesquisa sobre a natureza atômica das radiações de urânio, além de deter novos elementos químicos, que acabou laureando-a com dois Prêmios Nobel – um de Física e outro de Química. Mesmo esse reconhecimento foi marcado pela discriminação do gênero feminino. Dividiu o Nobel de Física de 1903 com Pierre Curie e Henri Becquerel, que, familiarizados com a sua tese, enviaram uma carta de indicação ao Comitê excluindo-a de sua própria pesquisa. A nomeação de Curie ao prêmio se deu graças a uma manobra do próprio Comitê.

Apesar da aparência vanguardista da instituição do Prêmio Nobel, apenas duas mulheres na Física e quatro na Química foram nomeadas em 117 anos de premiação. Outras físicas que mudaram o rumo da ciência no século XX foram completamente relegadas.

Apesar das mulheres que entraram atualmente em áreas da ciência não enfrentarem preconceitos tão evidentes quanto os do século passado, ainda sofrem pressões e assédios que provocam o efeito tesoura. E mesmo com todos estes desafios, as mulheres se fizeram e continuam se fazendo presentes em departamentos e laboratórios.

A professora Sônia Silveira Peduzzi, editora do “Caderno Brasileiro de Ensino de Física” desde 1992, foi a primeira mulher a integrar o quadro de professores do Departamento de Física da UFSC. Teve sua carreira reconhecida em uma homenagem no VI Encontro Estadual de Ensino de Física e, mesmo depois de 40 anos de casa, não pensa em aposentadoria.

Com a periodicidade quadrimestral, o “Caderno Brasileiro de Ensino de Física” tem como objetivo disseminar experiências entre docentes e pesquisadores, para que assim seja elevada a qualidade do ensino da Física nas instituições formadoras de professores e nas escolas que estes atuarão.

Esta e as demais edições do Caderno estão disponíveis em acesso aberto no site da revista, que pode ser conferido via Portal de Periódicos UFSC.

Patrícia Pimenta de Paula/Estagiária de Letras-Português/Portal de Periódicos UFSC